OPINIÃO: A Planilha Aceita Tudo, a Rua Não – Por que a análise "otimista" sobre a segurança em Sergipe ignora o medo do cidadão

Enquanto promotor destaca queda nos índices de homicídios, Tribuna de Sergipe aponta o "elefante na sala": a explosão de assaltos, a subnotificação e a sensação de que o bandido continua no comando.

OPINIÃO: A Planilha Aceita Tudo, a Rua Não – Por que a análise
Foto: TV SERGIPE

Editorial Tribuna de Sergipe 23 de janeiro de 2026

Nesta semana, a sociedade sergipana se deparou com uma análise do Ministério Público (MP) sobre os dados da segurança pública no estado. A leitura apresentada pelo promotor, baseada nas planilhas oficiais, pinta um quadro de evolução, focando principalmente na redução histórica das taxas de homicídios em comparação à década passada.

Nós, da Tribuna de Sergipe, concordamos com um ponto: matematicamente, morre-se menos em Sergipe hoje do que em 2016. É um fato estatístico que deve ser reconhecido e parabenizado, fruto do trabalho árduo das polícias Civil e Militar, que muitas vezes operam no limite de suas forças.

No entanto, paramos de concordar aí.

Quando tiramos os olhos das planilhas de Excel e olhamos para as ruas dos bairros de Aracaju, Socorro, Lagarto ou Itabaiana, a "sensação de segurança" descrita nos gabinetes soa como uma afronta à inteligência de quem pega ônibus cedo ou fecha seu comércio com grades de ferro antes das 18h.

O Erro de Focar Apenas no Homicídio

A análise oficial comete o pecado capital da segurança pública moderna: medir a paz social apenas pela ausência de cadáveres. O cidadão comum, o pai de família, a estudante universitária, eles não vivem apenas com medo de serem assassinados. Eles vivem aterrorizados com o assalto à mão armada, com o furto do celular parcelado em 12 vezes, com a invasão de suas residências.

E, nesses quesitos, a realidade de Sergipe não melhorou. Pelo contrário. A modalidade do crime mudou. O bandido pode até matar menos, mas rouba mais, oprime mais e circula com mais liberdade, ciente da impunidade garantida pelas audiências de custódia.

A "Cifra Negra" da Subnotificação

O promotor analisa os dados que chegam até ele. Mas e os que não chegam? Existe hoje em Sergipe uma epidemia de subnotificação. O cidadão foi assaltado na parada de ônibus? Ele nem vai à delegacia prestar B.O., porque sabe que é perda de tempo. Essa descrença nas instituições faz com que os índices de criminalidade pareçam menores do que são.

O dado oficial diz que o crime caiu. A realidade diz que a esperança na justiça é que caiu.

A "Paz" das Facções?

Outro ponto que a análise técnica ignora é a dinâmica do crime organizado. Especialistas em segurança sabem que, muitas vezes, a queda nos homicídios não é mérito exclusivo do Estado, mas sim uma decisão estratégica das facções criminosas. Quando um grupo domina hegemonicamente uma região, ele proíbe mortes para não atrair operações policiais ("o crime não pode parar"). Isso não é segurança pública; é o Estado perdendo o monopólio da força.

Conclusão

Respeitamos a análise técnica do Ministério Público, mas a Tribuna de Sergipe prefere ficar com a análise empírica da Dona Maria e do Seu João. Enquanto o sergipano tiver medo de sentar na calçada, de atender o celular na rua ou de parar no sinal vermelho à noite, qualquer gráfico que aponte "melhora" será apenas tinta no papel.

Segurança não é estatística. Segurança é liberdade. E isso, infelizmente, o sergipano ainda não tem.