Exclusivo: Campanha de Antônio Bala na mira; polícia apreende mala de dinheiro e áudios de Juca escancaram uso da máquina em Laranjeiras
Investigação expõe a campanha de Antônio Bala: R$ 13 mil apreendidos pela polícia, áudios do prefeito coagindo servidor e inquérito da PRE/SE sobre ONGs.
Uma teia complexa de contratações milionárias, terceirização em massa, assédio eleitoral e fluxo financeiro familiar colocou a Prefeitura de Laranjeiras no epicentro de uma grave investigação a poucas horas das eleições estaduais. Na madrugada deste sábado (03), uma Força-Tarefa da Polícia Civil de Sergipe prendeu um grupo suspeito de compra de votos na capital, apreendendo R$ 13 mil em espécie e farto material de campanha de Antônio Menezes Leite Neto, o "Antônio Bala" (MDB).
A apreensão ocorre no momento em que a Procuradoria Regional Eleitoral (PRE/SE) já investigava o suposto uso escancarado da máquina pública e de verbas da Educação para beneficiar a campanha do candidato, que é filho do atual prefeito de Laranjeiras, José de Araújo Leite Neto, o "Juca de Bala".
Documentos oficiais obtidos e cruzados com exclusividade pelo Tribuna de Sergipe, aliados a um áudio vazado do próprio chefe do Executivo, revelam que o município loteou serviços essenciais — da administração básica à saúde — entregando-os a um consórcio de Organizações da Sociedade Civil (OSCs). O dossiê investigativo estruturado pelo Tribuna desmascara o assédio sofrido pelos trabalhadores, a chamada "sopa de letrinhas" utilizada para dificultar a fiscalização, revela o histórico judicial das entidades envolvidas e rastreia o caminho do dinheiro que sai do alto escalão da prefeitura diretamente para as contas da campanha eleitoral do herdeiro político.
Dinheiro vivo, santinhos e prisões na madrugada
O agravamento da crise institucional e eleitoral em Laranjeiras materializou-se nas primeiras horas da madrugada deste sábado (03). Uma ação da Força-Tarefa da Polícia Civil de Sergipe, focada na repressão qualificada contra a compra de votos, resultou em apreensões e prisões na região dos bairros Santa Maria e Marivan, em Aracaju.
Após horas de patrulhamento e monitoramento a partir de denúncias sobre um suposto esquema de compra de apoio, os agentes realizaram abordagens que culminaram na apreensão de uma quantia de aproximadamente R$ 13 mil em dinheiro vivo, além de aparelhos celulares, veículos e vasto material de campanha, incluindo santinhos e adesivos.
Vídeos e imagens da operação, aos quais o Tribuna de Sergipe teve acesso, mostram o material apreendido espalhado sobre uma mesa. O conteúdo da propaganda eleitoral pertence ao candidato a deputado estadual Antônio Bala. Três indivíduos foram detidos em flagrante na operação e conduzidos para a Superintendência da Polícia Federal em Sergipe, onde o caso foi registrado.
"Ir para a rua para a guerra": Assédio eleitoral em áudio e retaliação
Se o inquérito da Justiça Eleitoral investiga a formação de um curral eleitoral através das ONGs e das terceirizações, um áudio enviado pelo prefeito Juca de Bala a um funcionário terceirizado — obtido com exclusividade pelo Tribuna — materializa o modus operandi da gestão. A gravação une negligência institucional, coação política e retaliação.
O áudio foi enviado pelo prefeito a um prestador de serviços contratado sob o regime terceirizado da prefeitura. Para preservar a identidade, a segurança do denunciante e evitar perseguições, o Tribuna de Sergipe não divulgará o setor de lotação nem os detalhes do conflito original.
Segundo apurado pela reportagem, o funcionário procurou o chefe do Executivo para relatar um problema grave ocorrido em seu ambiente de trabalho, buscando providências após ser ignorado por seus superiores. A resposta de Juca de Bala, enviada em áudio, ignora a denúncia do trabalhador e subordina imediatamente a manutenção de seu vínculo precário à exigência de engajamento na campanha eleitoral.
“Não vou tratar desses assuntos agora não, entendeu? Você estava na garagem, aí teve problema. Aí agora tá em praça, aí tá com problema novamente”, minimiza o prefeito no áudio, desqualificando a solicitação do prestador de serviços. Em seguida, Juca de Bala é taxativo ao vincular a permanência na gestão ao trabalho político: “O emprego eu já lhe dei. Eu agora quero saber é da política. Quem cuida dos seus horários lá é o secretário (...) Bora pra frente, viu? Veja aí, se você começar a postar essas coisas, e vamos pra rua pra guerra, viu?”
Pouco tempo após o episódio e a pressão por engajamento político, o funcionário que expôs a situação acabou sendo desligado de suas funções.
O desfecho do caso comprova a precariedade dos contratos via ONGs em Laranjeiras e materializa a denúncia de que esses trabalhadores estariam sendo coagidos a atuar como cabos eleitorais sob a ameaça constante de perda da renda, configurando flagrante assédio eleitoral.
O Inquérito, o "Exército" Terceirizado e os R$ 22 Milhões do Fundeb
As prisões por compra de votos e o vazamento do áudio sobre a coerção de terceirizados expõem as entranhas de um esquema que já estava sob a lupa estrita das autoridades. A estrutura do loteamento atende pelo nome de Portaria PPE PRE/SE nº 1/2026, instaurada em 16 de junho de 2026 e publicada no Diário do Ministério Público Federal.
O procedimento da Justiça Eleitoral nasceu a partir do compartilhamento de três inquéritos civis (2026.02.154.00000042, 2025.02.154.00000054 e 2026.02.154.00000074) conduzidos originalmente pela 1ª Promotoria de Justiça de Laranjeiras, vinculada ao Ministério Público do Estado de Sergipe (MPSE).
De acordo com o documento oficial da PRE/SE, a gestão do prefeito Juca de Bala é investigada por promover a contratação massiva de aproximadamente 470 a 600 pessoas, burlando a regra constitucional do concurso público, utilizando-se das siglas IPSE, IST e IBECDH.
A peça ministerial detalha a gravidade da origem dos recursos. O inquérito registra informações de que as contratações envolveriam verbas exclusivas da educação, apontando indícios do uso de mais de R$ 22 milhões do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) no custeio dessa mão de obra. O objetivo dessa engrenagem milionária, segundo a investigação, seria operar como um mecanismo ilegal de captação de votos para a candidatura de Antônio Bala à Assembleia Legislativa. Como diligência, a Justiça Eleitoral determinou o cruzamento minucioso da lista de todos os profissionais contratados por essas OSCs com as bases eleitorais para identificar vínculos político-partidários com a administração.
A "Sopa de Letrinhas": A Descoberta dos Institutos
Para entender como a prefeitura manobrou a contratação de centenas de pessoas, o braço investigativo do Tribuna quebrou o anonimato das siglas citadas pelo Ministério Público. Longe de serem parceiros assistenciais com vínculos comunitários locais, os institutos operam como um modelo de negócios de terceirização interestadual, formando uma "sopa de letrinhas".
As entidades investigadas pela Justiça Eleitoral foram formalmente identificadas pela reportagem:
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IPSE: Trata-se do Instituto de Pesquisa Saúde e Educação (CNPJ 63.110.431/0001-20), com sede matriz na cidade de Feira de Santana, na Bahia.
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IST: Refere-se ao Instituto de Saúde, Tecnologia e Direitos (CNPJ 31.106.041/0001-90), organização sediada no município de Cruz das Almas, também no interior baiano.
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IBECDH: O Instituto Brasileiro de Educação, Cultura e Saúde para o Desenvolvimento Humano (CNPJ 33.957.163/0001-16), que atua como figura central na assinatura dos chamamentos públicos municipais.
O revezamento e o emprego dessas diferentes nomenclaturas permitiram à administração pulverizar as despesas. No entanto, o Ministério Público Eleitoral unificou as três entidades no mesmo procedimento, investigando-as como as bases operacionais do suposto desvirtuamento da máquina pública.
Financiamento em Família: 100% do Alto Escalão
Enquanto a contratação precária dos trabalhadores ocorre nos bastidores das ONGs, a injeção financeira na campanha política de Antônio Bala flui de dentro das próprias secretarias municipais. Um cruzamento de dados realizado pelo Tribuna na prestação de contas parcial do candidato no sistema DivulgaCandContas revelou a concentração de recursos no núcleo duro da administração.
Até o início de outubro de 2026, a campanha havia registrado R$ 253 mil em arrecadação formal. Desse total, R$ 140 mil foram repassados pela Direção Nacional do MDB, seu partido político. O restante do montante, exatos R$ 113 mil, vieram de apenas três pessoas físicas. As três são ocupantes do primeiro escalão da gestão de Juca de Bala.
A maior doadora da campanha do candidato é Jussimara Assis Fontes Leite, que transferiu R$ 103 mil. Jussimara é Secretária de Gabinete da prefeitura, além de Primeira-Dama do município e esposa do prefeito. O montante foi complementado por Lucas Ribeiro Leite, secretário de Transportes, com R$ 5 mil, e por Leila Carla Santos de Melo Leite, secretária municipal de Saúde, com mais R$ 5 mil.
Em termos absolutos, 100% de todo o capital injetado por pessoas físicas na campanha de Antônio Bala — contabilizado até o fechamento da nossa base de dados — saiu das contas bancárias de secretários do alto escalão da Prefeitura de Laranjeiras. O forte aparelhamento financeiro vindo de integrantes da própria gestão reverbera a tese principal da Procuradoria Regional Eleitoral sobre a conversão da estrutura do Executivo em um comitê eleitoral familiar.
A Saúde Loteada ao IGC e o Precedente no Ceará
O processo de terceirização não poupou a área mais sensível da gestão: a Saúde. A administração da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Laranjeiras foi delegada integralmente, por meio do Termo de Colaboração nº 002/2026, ao Instituto de Gestão e Cidadania (IGC - CNPJ 24.127.105/0001-74).
Sediado em Fortaleza (CE) e com ampla atuação no Nordeste, o IGC carrega um passivo judicial que acende um alerta crítico sobre os repasses em Sergipe. Em 7 de agosto de 2025, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) ajuizou uma ação civil pública por improbidade administrativa contra o IGC e seus dirigentes, tendo como alvo a administração da UPA do município de Russas.
A denúncia do MPCE apontou a suspeita de um dano de quase R$ 5 milhões aos cofres públicos. O inquérito detalha irregularidades severas na execução do contrato: subcontratação indiscriminada e suspeita de mão de obra, pagamentos incompatíveis com os serviços efetivamente executados e a formulação de despesas supostamente simuladas. O escopo de atuação do IGC na UPA cearense alvo da denúncia reflete administrativamente as mesmas atribuições concedidas pela gestão de Laranjeiras ao instituto.
O Espaço Aberto e o Contraditório
O Tribuna de Sergipe atua sob os preceitos do jornalismo investigativo pautado em provas documentais e fatos materiais. Reiteramos que as portarias e os inquéritos instaurados pelo Ministério Público Eleitoral e Estadual são procedimentos investigativos em andamento e não constituem decisões ou condenações judiciais transitadas em julgado. As prisões realizadas pela Polícia Civil na madrugada deste sábado também integram inquérito policial e seguem os trâmites legais correspondentes.
A fim de preservar a transparência e a imparcialidade do processo jornalístico, a reportagem esclarece que não efetuou nem buscou qualquer tipo de contato prévio com a Prefeitura Municipal de Laranjeiras, com o prefeito Juca de Bala, com a campanha do candidato Antônio Bala, ou com os institutos supracitados (IBECDH, IPSE, IST e IGC).
O espaço editorial deste veículo de comunicação encontra-se integralmente aberto e democraticamente franqueado a todos os entes, pessoas e organizações citadas nesta apuração, caso desejem emitir notas de esclarecimento, apresentar direito de resposta ou oferecer suas contestações aos fatos, áudios e documentos públicos aqui apresentados.











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