LARANJEIRAS: A cidade milionária onde metade da população depende do Bolsa Família para sobreviver

Levantamento exclusivo do Tribuna de Sergipe cruza dados oficiais e revela abismo social: enquanto 4 mil pessoas dependem do Bolsa Família, apenas 29

LARANJEIRAS: A cidade milionária onde metade da população depende do Bolsa Família para sobreviver
CLT X BOLSA FAMÍLIA

Laranjeiras, SE – Conhecida como uma potência industrial de Sergipe, dona de um PIB que ultrapassa a casa dos R$ 600 milhões e sede de grandes fábricas, Laranjeiras vive um paradoxo. Apesar da riqueza gerada em seu território, um levantamento exclusivo realizado pelo Tribuna de Sergipe, cruzando dados do portal Gov.br e do sistema Caravela, expõe que o desenvolvimento econômico não está se convertendo em empregos formais para a maioria da população.

O infográfico elaborado por nossa equipe de jornalismo desenha, pela primeira vez, a divisão real da sociedade laranjeirense. De uma população total estimada em 24 mil habitantes, a realidade econômica se fragmenta em três fatias desiguais.

A Minoria Formal (29%)

O dado mais alarmante do levantamento é a escassez de empregos registrados. Apenas 7 mil pessoas em todo o município possuem carteira assinada. Isso significa que, em uma cidade cercada de indústrias de grande porte, menos de 30% da população tem a segurança de um salário fixo, contribuição ao INSS e direitos trabalhistas garantidos. É uma fatia extremamente pequena para um município com tamanha capacidade de arrecadação e potencial industrial.

O Peso do Assistencialismo (17%)

Logo em seguida, os dados apontam a forte dependência de programas sociais. Cerca de 4 mil pessoas dependem diretamente da transferência de renda do Bolsa Família para sobreviver. O número revela a persistência da vulnerabilidade social: para cada dois trabalhadores que conseguem um emprego formal no município, já existe mais de uma pessoa que precisa do socorro do Governo Federal para colocar comida na mesa.

A Maioria "Invisível" e o Desemprego (54%)

A maior fatia do gráfico, no entanto, é a que esconde a realidade mais dura. Cerca de 13 mil habitantes — ou 54% da população — não aparecem nem nas estatísticas de emprego formal, nem na lista de beneficiários diretos do Bolsa Família.

Embora este grupo inclua, naturalmente, crianças, estudantes e aposentados, ele também mascara uma multidão de trabalhadores informais. São pais e mães de família que vivem de "bico", sem renda fixa, e desempregados que desistiram de procurar vaga formal por falta de oportunidade.

A Barreira da "Peixada"

Mas por que, com tantas fábricas, o laranjeirense não consegue emprego? Além da qualificação, a população aponta um vício antigo nas relações de trabalho locais: a famosa "peixada".

Relatos colhidos pela reportagem indicam que o acesso às vagas nas empresas prestadoras de serviço e nas indústrias locais muitas vezes não ocorre por meio de processos seletivos abertos e transparentes. Sem a indicação de um "padrinho político" ou de alguém influente dentro das empresas, o currículo do trabalhador comum raramente é avaliado.

Essa cultura da indicação transforma vagas de emprego, que deveriam ser preenchidas por competência técnica, em moeda de troca e privilégio de poucos, deixando a grande massa da população à margem do desenvolvimento econômico da própria cidade.

O Tribuna de Sergipe questiona: onde estão os programas de incentivo à contratação de mão de obra local via processos seletivos justos? Enquanto a "peixada" for o critério, Laranjeiras continuará sendo uma cidade rica com uma população de trabalhadores empobrecida.